Moda e descarte: os impactos por trás das roupa que compramos
- Avenida Agencia de Jornalismo

- 3 de fev. de 2022
- 15 min de leitura
No Brasil, a indústria da moda gera 175 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano
Por: Danielle Gadelha, Letícia Maia e Mateus Macêdo
Resumo da reportagem:
A indústria da moda gera muito lucro e poluição
Como ocorre o processo de fabricação das suas roupas
Formas de reciclar e reutilizar roupas e resíduos têxteis
O consumo consciente da moda é uma prática de responsabilidade social
A indústria da moda é uma das mais lucrativas do mundo e uma das que mais gera poluição. Segundo dados da ONU Meio Ambiente, a indústria da moda está avaliada em cerca de US$ 2,4 trilhões e emprega mais de 75 milhões de pessoas no mundo. Porém, a pesquisa também aponta uma perda de cerca de US$ 500 bilhões ao ano em descarte de roupas que vão para aterros e lixões.
A principal causa desse problema é o chamado fast fashion, um termo criado para designar o sistema de consumo alto e de curto prazo de peças de roupas, que em muitos casos é estimulado pelas próprias marcas e empresas de moda. As pessoas consomem, em média, 60% mais peças do que há 15 anos e cada item é mantido no armário por metade do tempo de antes, de acordo com a ONU.
“Nesse modelo de negócio (fast fashion), em média, são colocadas 52 coleções anuais e isso ocasiona um ciclo de vida menor das peças, ou seja, as roupas são usadas pouquíssimas vezes e descartadas instantaneamente. O sistema capitalista que estamos inseridos faz com que a produção seja cada vez mais veloz, para que as pessoas consumam de forma acelerada e, consequentemente, descartem velozmente para adquirir um novo modelo ou nova peça do momento. Porém, o planeta já pede socorro e a natureza já dá seus sinais”, alerta a especialista em moda, Lorena Delfino.
Beatriz Guedes, designer, ativista e voluntária do Fashion Revolution, explica que o fast fashion não é o único responsável pelo aumento de descarte de produtos têxteis, mas que isso é um resultado de um modelo capitalista de consumo. “Não é só culpa do fast fashion, é óbvio que o sistema acelerou e mudou a cadeia produtiva completamente. Isso já acontecia antes do fast fashion ser o modelo predominante de moda, mas uma vez que estamos trabalhando com um modelo de produção que é voltado para a produção em larga escala, que consome uma quantidade absurda de matéria prima e o consumo desenfreado, existe uma necessidade de você estar o tempo todo consumindo uma novidade, acaba que é óbvio que o descarte aumentou. Uma coisa é consequência da outra”, afirma.
Os movimentos sustentáveis que buscam conscientizar as pessoas sobre o consumo mais responsável estão aos poucos se popularizando na moda, mas ainda são insignificantes se comparados com o crescimento de empresas de fast fashion. Como é o caso da varejista chinesa de fast fashion Shein, com o público alvo mais voltado para Geração Z, o sucesso da empresa está na alta divulgação por meio de influenciadores no Instagram, no TikTok e no Youtube, além do baixo custo das peças. Atualmente, a Shein chegou a ter um valor de mercado de US$ 15 bilhões, tornando-se uma das startups de tecnologia mais valiosas do mundo.
A indústria têxtil no Brasil já tem mais de 200 anos de história. O país tem a maior cadeia têxtil completa do Ocidente: o sistema no país possui desde a produção das fibras, como plantação de algodão, até os desfiles de moda. O Brasil é referência mundial em design de moda praia, jeanswear e homewear, tendo crescido também os segmentos de fitness e lingerie;
Estima-se que 9,04 bilhões de peças (vestuário + meias e acessórios + cama, mesa e banho) sejam produzidas por ano.
Escute um áudio de Beatriz Guedes falando sobre a cadeia produtiva de moda no Brasil:
SAIBA MAIS: Trabalho Escravo na Moda
Só que uma cadeia tão grande também gera diversos problemas e consequências negativas para o meio ambiente. A indústria da moda no Brasil gera 175 mil toneladas de resíduos têxteis por ano, de acordo com dados da Associação Brasileira de Indústria Têxtil (ABIT).
De acordo com a Politica Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) , a responsabilidade do descarte sustentável dos itens adquiridos é dos consumidores, porém as empresas também têm parte dessa responsabilidade pós-consumo, fornecendo alternativas corretas e viáveis aos consumidores.
Para desacelerar um pouco o alto consumo de peças de roupas e evitar a degradação da natureza, a especialista em moda Lorena Delfino opina que “ser sustentável no sistema capitalista que estamos inseridos é bem complicado. Práticas mais sustentáveis podem até existir, tanto de consumidores quanto de empresas, mas temos que ter muito cuidado a respeito. Acho que esse momento de pandemia foi um período de olhar mais para a temática da sustentabilidade, mas esse tema não depende só das empresas e dos consumidores, e sim é uma junção de stakeholders - empresas, governo, sociedade civil. Precisamos muito de políticas públicas a respeito e leis que respaldem esse tema.”
A moda no Ceará
O Nordeste é a segunda maior região em produção têxtil no Brasil, sendo o Ceará o estado que mais agrupa municípios envolvidos com a atividade. O aumento da exportação de seus produtos e o lançamento de criações o tornam um grande centro dinâmico da moda.
O setor da indústria têxtil já tem mais de 130 anos de história nesta região. Desde o início da expansão da indústria têxtil no Ceará, a capital Fortaleza foi o ponto de maior participação, por conta dos grandes portos da cidade e da concentração de pessoas e renda da sua região metropolitana. O grande salto na produção têxtil do estado se deu com a criação do Polo de moda da José Avelino, criado no início dos anos 1990. O comércio popular está localizado entre a Catedral Metropolitana e as Avenidas Alberto Nepomuceno e Pessoa Anta.
O polo da José Avelino gera em média, renda a 100 mil pessoas, fazendo girar cerca de R$ 70 milhões/mês.
Outro ponto que contribui bastante para o Ceará ser um grande pólo têxtil são as características naturais que fazem dele um grande produtor de algodão, principalmente por conta da incidência do sol. O algodoeiro cresce muito bem com a insolação, provando que o Estado tem condições de solo e clima muito aptas para a produção e colheita do algodão. Só em 2020 foram plantados 2919 hectares de algodão no estado. A produção de algodão no Ceará se concentra em Brejo Santo, Iguatu, Milagres, Missão Velha e Tabuleiro do Norte.
Fortaleza também é palco de um dos maiores eventos de moda do Brasil, o Dragão Fashion Brasil. O evento reúne os maiores estilistas brasileiros e jornalistas internacionais para um festival de moda autoral, formação, shows e gastronomia.
Araguacy Paixão, professora do curso de design-moda da UFC, explica que a confecção no Ceará tem elevada importância para o estado economicamente e socialmente. “A cadeia têxtil e confecção do Ceará tem elevada importância para o estado, tanto pelo aspecto econômico quanto social, pelo nível de produção e pela quantidade de famílias envolvidas, seja pelo emprego direto quanto indireto por todas empresas que fazem parte dessa cadeia. Tanto no nível têxtil quanto confecção que envolve também os acabamentos (veja a quantidade de lavanderias) temos indústrias de todos os portes; as grandes indústrias se concentram no setor têxtil, já na confecção, microempresas dominam em quantidade, sobretudo as ‘fundo de quintal’ e as oficinas terceirizadas, com muitas pessoas trabalhando, mas muitas vezes com remuneração abaixo do aceitável.”
Sobre as ações sustentáveis por parte da indústria têxtil aqui no Ceará, Araguacy comenta que “observa-se um movimento de ações e atitudes ligadas à sustentabilidade, a alguns processos e procedimentos, mas muitas vezes funcionam como estratégia de marketing, mais do que a preocupação real com a produção e o consumo.
Ela considera que esse é um processo educacional da sociedade, que vem sendo despertado nas últimas gerações, mas ainda que ainda está muito inicial. Além das questões relacionadas à sustentabilidade na cadeia produtiva cearense, a professora do curso de moda também observa que “existe um movimento que tem se apresentado crescente da reutilização de roupas, de prolongamento da sua vida útil, principalmente com a existência de brechós e bazares. É positivo, porque se reduz a quantidade de têxteis nos lixões, por outro lado, a mídia que está no nosso dia a dia 24h por meio das telas, incentiva o consumo. E para o consumo consciente precisamos de ações mais enérgicas, de envolvimento maior da sociedade e dos empresários.”
O caminho das roupas
Mas você já parou pra pensar em como ocorre o processo de fabricação das suas roupas e quais impactos eles geram?
Poucos são os consumidores que sabem ou se lembram disso na hora das compras. Segundo uma pesquisa realizada pela Modefica, a Regenerate Fashion e o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas, 44,7% das pessoas entrevistadas afirmaram que as práticas responsáveis pela loja podem mudar a intenção de compra.
Hadassa Emily, estudante de Engenharia de Alimentos da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), explica que na hora das compras as práticas responsáveis da loja não são prioridade, mas que pode mudar de ideia. “Quando eu estou precisando muito de uma roupa para uma festa ou evento, eu não penso o que aquela roupa pode ocasionar à natureza. Mas se a loja me apresentar um produto que seja biodegradável, não faz teste em animais ou não poluente, e que seja de um valor justo, eu vou optar pelo que não é prejudicial à natureza.”
Sabe aquela calça jeans inofensiva e que combina com quase tudo no seu guarda-roupas? Ela é uma das peças mais poluentes do vestuário
A cadeia produtiva de uma peça jeans engloba os setores primário, secundário e terciário. Ou seja, a produção envolve o setor agrícola (plantação de algodão), industrial (fabricação das fibras e das peças propriamente ditas) e comercial (venda aos consumidores finais).
Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), o Brasil está entre os cinco maiores produtores de denim no mundo. No país, temos uma cadeia completa de fabricação de jeans, desde o início da produção, com os fios do algodão à confecção e por fim o descarte.
O nordeste é a segunda região que mais produz algodão e tem uma forte presença no segmento de fios e tecidos em denim. A comercialização do denim nordestino tem um faturamento de aproximadamente 1,5 bilhão de reais por ano. Uma das principais
cidades que colaboram com a produção desse material é Fortaleza.
No varejo nacional, as peças feitas do tecido representam 11,3% do consumo de roupas, e no ano passado, movimentaram 22 bilhões de reais, mesmo com o mercado de moda sob os efeitos da pandemia.
Matéria-Prima
O ciclo de vida de uma peça de vestuário tem início com a produção da fibra, matéria-prima essencial para a sua confecção. É a partir dos campos de algodão que se inicia a produção do jeans. A planta é colhida através de máquinas específicas. Além disso, o algodão precisa passar por um processo de limpeza intenso para que não fique nenhum resíduo nele. Todo esse processo é feito para que o algodão seja transformado em denim.
Nessa etapa, o principal problema é o uso de pesticidas nas culturas de algodão. Estima-se que se aplica, em média, 28 litros de pesticidas por hectare de algodão, o que equivale a cerca de 42% do custo de produção da fibra.
A utilização de agrotóxicos pode causar sérios danos ao ambiente, além de ter alto potencial de afetar a saúde humana. Conforme a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), ele é responsável, por exemplo, pela contaminação das águas superficiais e subterrâneas, mortalidade de abelhas, intoxicação e aborto espontâneo.
Fiação
Os fios da planta são separados, desembaraçados para que seja criado um fio resistente.
O processo de produção de fios, também chamado de fiação, é onde as fibras vão ser abertas, limpas e orientadas em uma mesma direção, paralelizadas e torcidas de modo a se prenderem umas às outras por atrito. Todo esse processo já é feito dentro da indústria têxtil utilizando um maquinário específico.
Nessa etapa os fios também são tingidos em um processo contínuo, em vários ciclos, por meio de um equipamento especial de tingimento de índigo, no caso das calças jeans.
O tingimento dos fios é um processo extremamente perigoso, principalmente, por conta da grande quantidade de produtos químicos potencialmente tóxicos que são usados para tingir os fios. A falta de transparência e rastreabilidade da indústria, faz com que não se saiba muito sobre quais químicos são utilizados e quais os reais impactos que eles podem ocasionar à saúde humana e ambiental.
Além disso, essa fase também é responsável pela utilização de uma grande quantidade de água. Estima-se que o tingimento e o acabamento consigam consumir em torno de 125 litros de água por quilo de fibra do algodão.
Tecelagem
Os fios devidamente produzidos e tingidos, chegam ao setor de tecelagem. É no tear que os fios do urdume são encaixados com os fios da trama, e formam o tecido – ainda cru, sem acabamento nem lavagem. No setor de acabamento o jeans é escovado, aspirado e até chamuscado, para eliminar a penugem industrial que se deposita no jeans antes dele ser acabado. Em seguida, o tecido recebe uma lavagem de amaciamento e, depois, é pré-encolhido. Devidamente seco, o jeans segue para repousar em pilhas que vão de 1.800 a 2.200 metros.
Confecção
As fábricas de confecções adquirem esse tecido das empresas especializadas ou das tecelagens.
É nessa etapa na qual o tecido começa a tomar forma. Utilizando os moldes, recorta-se o pano em diferentes partes, as quais serão emendadas posteriormente. Cada corte obtido por meio dos diferentes moldes deverá ser costurado um no outro a fim de formar a roupa. Esse processo envolve máquinas diferentes, uma para cada fim.
O modelo do produto final é desenvolvido pelo estilista, profissional da moda especializado na criação de roupas e acessórios.
Após essa fase, inicia-se a última etapa: o acabamento. Nele, é dado o efeito final da peça, seja o resinado, lixado, marmorizado, esgarçado ou used. Os botões, etiquetagem e linhas são incluídos nesse momento também.
Nessa etapa os fios também são tingidos em um processo contínuo, em vários ciclos, por meio de um equipamento especial de tingimento de índigo.
As empresas de confecções de vestuário representam 25% da indústria têxtil no geral, contribuindo ativamente com a produção de resíduos derivados dos retalhos de tecidos. Somente uma pequena parte dos resíduos gerados pela indústria têxtil é destinada ao reprocessamento e reciclagem, enquanto ao menos 60% é descartado indevidamente em lixões irregulares.
Varejo e Consumo
Depois de confeccionada, as peças de roupas seguem para os centros de distribuição, de onde vão ser transportadas para as lojas ou permanecem nos centros de distribuição para serem comercializadas via e-commerce e depois vão ser compradas pelos consumidores.
Segundo dados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), em 12 meses são comercializadas 6 bilhões de peças no varejo. No período pelo qual o Brasil passou por restrições devido à Covid-19, o comércio de moda chegou a faturar 134 milhões de reais, de acordo com a Nuvemshop, plataforma de desenvolvimento de e-commerce.
Descarte
Depois de consumidas, as peças consideradas sem serventia acabam sendo jogadas fora, ou doada.
De acordo com o SEBRAE, das 175 mil toneladas de resíduos têxteis que são geradas por ano, dado que considera tanto os resíduos gerados durante o processo de fabricação quanto as roupas já consumidas, 80% vão direto para os aterros sanitários.
Beatriz Guedes, ativista da moda sustentável e voluntária do Fashion Revolution, explica que a forma como o consumidor final se relaciona com as suas roupas é uma problemática para a pauta ambiental. “O que fazer quando você não quer mais? Você joga fora? O que você faz com um tapete rasgado? Fugindo um pouco aqui da moda, você pode facilmente doar, ainda que doar uma roupa rasgada não seja legal. O que você faz com algum produto têxtil que não seja de moda quando ele tá rasgado, manchado e não te serve mais, vai para onde? Para o lixo, vai ser incinerado e, dependendo da forma como foi fabricado, os químicos contidos nele vão para a atmosfera”, explica.
O descarte incorreto de roupas velhas podem ocasionar o entupimento de bueiros, a impermeabilização do solo e causar ainda mais poluição quando são queimados, causando impactos na saúde humana por conta dos químicos e tinturas utilizados nos tecidos. Além disso, o descarte incorreto de tecidos é crime ambiental, de acordo com a Lei nº 12.305/2010.
SAIBA MAIS: A decomposição dos tecidos
Como mudar o destino final das roupas?
Reciclagem de Tecido

A pesquisa Possibilidades Para Moda Circular no Brasil realizada em 2020 pelo Modefica com apoio da FGV e Regenerate, mostrou que 56,8% das pessoas estariam dispostas a reciclar suas peças de roupas se soubessem que elas, de fato, estão sendo recicladas. Ao mesmo tempo, 49.9% das pessoas nunca ouviram falar sobre reciclagem de roupas no Brasil.
A reciclagem de tecido é uma prática pouco conhecida e pouco utilizada aqui no Brasil. Isso se dá, por conta do estado em que os tecidos se encontram após serem descartados (muito sujos e parcialmente degradados) e também pelo pouco volume concentrado, o que inviabiliza comercialmente a reciclagem.
Existem duas formas de reciclar tecidos: a mecânica e a química.
A reciclagem mecânica envolve a picotagem do tecido. Esse método se utiliza de máquinas que rasgam e trituram o tecido. São equipamentos capazes de retalhar de 50 a 3 mil quilos de tecido por hora. As fibras trituradas são transformadas em fardos e usadas pelas indústrias para produzir enchimentos para sofás, sacos de boxe, edredons, carpetes e outros produtos.
Já o processo químico foi desenvolvido para melhorar as características e propriedades das fibras. Somente os tecidos do tipo poliéster, poliamida e elastano podem ser reciclados por meio desse método.
A reciclagem do poliéster consiste em triturar, secar, limpar, colocar em um processo de fusão e extrusão (saída a força) a uma temperatura de 295° Celsius para se obter fios e filamentos têxteis.
Já com a poliamida e com o elastano o processo começa com a separação das fibras de acordo com a cor e a qualidade do fio. Após isso, elas são colocadas dentro de um tanque de aço com ácido fórmico. O conteúdo do tanque passa por um filtro que retém uma parte sólida que se forma, uma espécie de espuma. Normalmente, esses tecidos quando reciclados se transformam em flocos ou plásticos de engenharia.
Além disso, é possível também que as fábricas utilizem aparas têxteis de outras empresas, que seriam incorporadas ao processo produtivo (resíduo pré-consumo), evitando que se tornem resíduos, mas esta não é uma prática comum no país.
Upcycling

Essa tendência que surgiu na década de 90 nada mais é do que uma técnica de reaproveitamento de materiais já existentes, transformando peças que seriam descartadas em aterros sanitários e dando um novo sentido para elas. Em outras palavras, usar as sobras para criar algo novo.
O upcycling não é o mesmo que reciclagem, pois difere do ato de reciclar que se vale de processos químicos e maquinários para transformar materiais descartados. Essa técnica em questão consiste em adaptação e readequação quase sempre manuais.
Para Marcelo Belisário, designer, consultor de negócios de moda e idealizador do projeto do lixo ao luxo, o upcycling na moda, “o upcycling abrange fatores como a sustentabilidade, economia circular, priorizando insumos mais duráveis, aumento de vida útil do produto, materiais biodegradáveis, recicláveis ou renováveis. Atuando como parte importante para a redução da quantidade de resíduos no mundo, sejam têxteis ou não.”
Ele acredita que é preciso que a sociedade tome consciência da quantidade de materiais têxteis que são desperdiçados pela indústria da moda e por outras empresas e como esses materiais, que na maioria das vezes vão para o lixão, poderiam servir de insumos para as cooperativas de artistas, artesãos e grupos sociais mais carentes como forma de despertar a sustentabilidade, o reaproveitamento e o reuso consciente dos materiais.
Marcelo salienta também que o upcycling é uma técnica que qualquer um pode fazer em casa, não precisa de maquinário específico, “o importante é ter muita paciência para separar e organizar todo o material que irá trabalhar para que se possa, definir que tipos de peças que serão produzidas, lembrando que nada pode ser descartado, tudo que se tira de uma peça é preciso aproveitar em outra que será criada, a partir daí é só soltar a criatividade e começar a cortar, costurar, alinhavar, pintar, bordar.”
Brechós e Doações:

Outra forma de mudar o destino da sua roupa é destinar aos brechós e bazares. Segundo o GlobalData, os jovens estão aderindo à moda seminova mais facilmente; eles são os ativistas e os precursores dessa nova tendência. A pesquisa também aponta que, até 2028, 13% das roupas das mulheres serão compradas de brechós.
Segundo a ativista da moda Beatriz Guedes, a cultura da doação de roupas no Brasil ainda é muito forte. Diferente da Europa e dos Estados Unidos, onde os produtos têxteis são levados para os aterros sanitários e incinerados, os brasileiros têm o bom costume de passar adiante roupas, brinquedos e outros acessórios que não sirvam mais.
Monique Linhares, 28 anos, é consumidora de peças de brechó há quase cinco anos e relata que sempre gostou trocar peças de roupas usadas com pessoas conhecidas antes mesmo de garimpar peças em brechós e bazares. “Na verdade, eu nunca tive problema em trocar roupas com as amigas, com prima, sabe? Sempre foi tranquilo. O fato de serem peças mais baratas foi o que me atraiu nos brechós ``, afirma.
Segundo dados do Sebrae, a abertura de estabelecimentos que comercializam produtos de segunda mão registrou um crescimento de 48,58%, entre os primeiros semestres de 2020 e 2021. Para Monique o que facilitou o consumo das peças foi a presença dos brechós também nas redes sociais. “Recentemente, assim, acho que tem poucos anos que os
brechós migraram muito para as redes sociais, principalmente o Instagram. E aí fica até mais fácil garimpar, porque tem várias opções, você consegue escolher antes de sair de casa, em vez de visitar um lugar. Então essa digitalização das vendas facilitou bastante, tanto que agora eu estou bem mais interessada em brechós assim por conta da facilidade de busca”, relata.
O grande vilão
O consumo da população mundial está causando impactos quase irreparáveis na Terra, então repensarmos nossos hábitos é obviamente urgente. Consumir conscientemente é o mínimo que podemos fazer. É um dever de cada um de nós pensar e ponderar nosso consumo.
Escute um áudio de Beatriz Guedes falando sobre como a sociedade civil tem que agir na hora de consumir:
No entanto, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento mensal médio real de todas as fontes no país passou de R$ 2.292 em 2019 para R$ 2.213 - valor mais baixo desde 2013, quando era estimado em R$ 2.250. Com os brasileiros tendo uma renda cada vez menor, consumir conscientemente torna-se cada vez mais uma utopia.
Por isso, é sempre imprescindível que salientemos o grande causador do problema, que é essa cadeia produtiva que nós seguimos. No fim, a grande escolha que precisa ser feita, infelizmente, não é uma decisão individual, mas é preciso escolher entre a cadeia produtiva que seguimos, o capitalismo neoliberal, e a vida na Terra. Esses dois não tem a capacidade de coexistir em harmonia.
No entanto, enquanto essa escolha ainda está para ser feita é necessário uma cobrança às empresas para que elas tenham ações mais sustentáveis e para que causem cada vez menos impactos no planeta em que vivemos.
Escute um áudio de Beatriz Guedes falando sobre a conscientização dos empresários:
Como Fizemos
A matéria foi produzida entre os dias 18 de novembro e 3 de dezembro. O processo de apuração começou com a utilização de pesquisas online sobre os impactos e o funcionamento da indústria da moda/têxtil tanto no mundo quanto no Brasil. Por conta da pandemia de COVID-19 e também devido à distância, todas as fontes foram constatadas de maneira remota, por meio do Instagram, e-mail e telefone.
Primeiro contatamos a Beatriz Guedes que é formada em design de moda, ativista e também desenvolveu trabalhos para marcas como Stella McCartney e Alexander McQueen. Ela foi super solicita e concordou em participar da matéria. Achamos as falas dela tão apropriadas que resolvemos editar alguns trechos em áudio e inseri-los durante a reportagem.
Depois de ter conversado com a Beatriz, fomos contatar a Lorena Delfino que é especialista em moda e comunicação e pesquisa sobre consumo, moda e sustentabilidade que também foi bastante disponível e aceitou participar da reportagem.
Após termos falado com Beatriz e Lorena, começamos a contatar as demais fontes como a professora do curso de design-moda da UFC, Araguacy Paixão, a estudante, Hadassa Emily, o designer, Marcelo Belisário e a consumidora de brechós, Monique Linhares.
Depois de ter conversado com as fontes, começamos a escrever e produzir os conteúdos que estão presentes na matéria.

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