Quando a reciclagem se torna inviável?
- Avenida Agencia de Jornalismo

- 2 de fev. de 2022
- 10 min de leitura
Atualizado: 3 de fev. de 2022
Brasil é o 4° maior produtor de lixo plástico, o 5° em lixo eletrônico do mundo e cerca de 40% de seu lixo coletado é destinado a aterros controlados e lixões
Por Lídia Hellen, Levi Aguiar e José Manuel.
O lixo descartado inadequadamente traz complicações ambientais e na qualidade de vida. Em nove das 20 cidades litorâneas do estado do Ceará foram recolhidos 6,6 toneladas de lixo do mar desde janeiro de 2019 até dezembro de 2021, balanço Ministério do Meio do Ambiente (MMA). A iniciativa faz parte da estratégia do Plano Nacional de Combate ao Lixo no Mar (PNCLM). No Nordeste, 10,5 milhões de toneladas de lixo coletado são direcionados inadequadamente para lixões e aterros sanitários, segundo Panorama dos Resíduos Sólidos, elaborado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe)..
Só em relação aos plásticos, o Brasil ocupa a posição de quarto no ranking de países que mais produzem esse tipo de lixo. Ao todo são mais de 11,3 milhões de toneladas, contudo o país recicla cerca de 145 mil de toneladas, o equivalente a 1,28% do que é produzido. Mais informações sobre o plástico e o descarte no Brasil:
O Brasil descarta de forma irregular mais de 2,4 milhões de toneladas, segundo dados do Banco Mundial.
Em muitos casos, essas toneladas de plásticos são destinados a lixões a céu aberto, sem qualquer tratamento.
Em relação aos aterros sanitários, o Brasil destina aproximadamente 7,7 milhões de toneladas de lixo.
A poluição de plástico gera mais de UR$ 8 bilhões de prejuízo à economia global, afetando diretamente setores pesqueiros, comércio marítimo e o turismo, segundo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).
Fonte: What a Waste 2.0 : A Global Snapshot of Solid Waste Management to 2050, relatório do World Bank Group (Grupo Banco Mundial).
Legenda: Ranking dos 10 países que mais fabricam plástico no mundo.
As consequências do descarte irregular de materiais sólidos refletem em diversos problemas que podem ser observados nas cidades. “Nos alagados pelas cidades, devido à obstrução de bocas de esgoto por resíduos jogados nas ruas, nas doenças transmitidas por vetores como mosquitos, ratos e outros - atraídos pelos aglomerados de lixo nas ruas -, no mau cheiro que sentimos em trechos das cidades e em muitos outros aspectos negativos que podemos notar”, explica o cientista ambiental Guilherme de Melo.

Foto: José Manuel
Legenda: Descarte de lixo na rua para recolhimento.
A produção e descarte de resíduos sólidos é constante. Mas o que fazer com tanto resíduo? A reciclagem é o meio de transformação desses resíduos sólidos que não seriam aproveitados, podendo passar por mudanças de estado físico, físico-químico ou biológico, de modo que o resíduo se torne novamente matéria-prima ou produto.
Economia circular
Diante do cenário econômico mundial derivado da economia linear, que consiste em uma extração, produção, consumo e descarte entranhado na sociedade. Ambientalistas e pesquisadores começaram a pensar em outros modelos de sociedades que sejam menos danosos ao ecossistema.
A integração da cadeia produtiva a um mercado consciente é chamado modelo de economia circular, em oposição a economia linear. Dentro desse modelo, o ciclo teria a produção do lixo como nula, podendo haver só geração mínima de resíduos, pois a cadeia estaria adaptada a reciclar e ter produtos com composições químicas que permitiriam melhor aproveitamento. “A economia circular acaba não tendo lixo, porque aquela matéria-prima volta para o ciclo de vida do produto”, comenta a advogada, membro do instituto Verdeluz e da comissão e direito ambiental da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/CE) Carla Mariana.
Para a inserção desse sistema circular, além da adaptação da cadeia as fábricas devem repensar o designer de seus produtos, desenvolvido atualmente com pouco matéria e de péssima qualidade, como reforçam Carla Mariana e Lucas Saraiva, graduando em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e voluntário do Instituto Verdeluz.
Se a cadeia de produção que está inserida na economia circular, os resíduos são mitigados, como aponta Carla Mariana. “Dentro da economia circular não há lixo, porque o lixo é um erro de design. Muitas vezes, uma pessoa pega uma garrafa de água, e têm garrafas que são moles”. Nesse sentido, há a questão da fragilidade dos produtos entregues no mercado atualmente como exemplo, plásticos de uso único descartados imediatamente após o uso, pois apresentam uma vida útil efêmera, sem poder ter reutilização progressiva.
Além disso, Carla acrescenta que o mercado segue nesse entendimento de produção, que utilizar menos matéria-prima vai estar sendo mais sustentável, porém, ela estabelece que na economia circular, os produtos entregues pelo mercado passam por análise, para terem vida útil durável, como exemplifica. A adaptação do design pode envolver o aprimoramento da estrutura física e química das embalagens, o que confere a elas um uso mais prolongado e a possibilidade de reciclagem.
Para onde olhamos há plástico. O que há no seu entorno? Um celular? Um computador? Um carregador? Um fone de ouvido? Tem plástico. Sobre a importância do plástico, Lucas Saraiva argumenta: “Se a gente tirar o plástico, banir de uma vez, vacina não existia, máscara não existia, não existia quase nada. Então ao mesmo tempo que o plástico é um problema é também a solução”.
Para ele, a solução começaria em reduzir e desestimular o uso individual. “A solução é no sentido de banir o uso único, e ter tecnologia de designer de produto, designer que a gente consiga inserir dentro de uma economia circular e que a gente possa estar reutilizando até que dê tudo certo”.
Consumismo
O destino do ciclo de vida de tais materiais é o lixo, porém o problema ambiental, econômico e social é de grande impacto na sociedade. No entanto, apesar de todas as campanhas e debates sobre a proteção dos recursos naturais, a reciclagem no Brasil ainda está no começo.
De acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos, elaborado pela Abrelpe, o acesso ao consumo e a oferta de produtos com embalagens são elementos que auxiliam para esse constante crescimento.
Toda essa situação acaba impactando de forma negativa tanto na saúde da população, quanto na economia, pois interfere nas atividades turísticas, além de ser um desperdício de materiais que sabemos que podem ser reciclados, aponta Guilherme.
No que se refere à produção de lixo, no Brasil, entre os anos de 2010 e 2021, a geração de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) registrou um considerável incremento, passando de 67 milhões para 82,4 milhões de toneladas por ano.
Também, no mesmo período, a quantidade de resíduos coletados em todas as regiões do país cresceu de 59 milhões de toneladas para 76 milhões de toneladas. Além disso, foi elevada a cobertura de coleta de 88% para 92,2%.
Fonte: Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe)
Legenda: Panorama de produção de lixo no Brasil e suas regiões no ano de 2021.
Em 2019 segundo a Abrelpe, associações e companhias acompanhadas pela Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (ANCAT) o volume total de materiais recicláveis recuperados de embalagens em geral foi de 354 mil toneladas de materiais recicláveis secos, deixando assim redução de dióxido de carbono (CO₂) equivalente a 174 mil toneladas de CO₂.
Fonte: Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe)
Legenda: Volume total de materiais recicláveis recuperados em 2019 por categoria (em mil toneladas)
O Mercado e a reciclagem
O processo para reciclagem passa por várias etapas desde a fabricação, consumo, coleta, triagem e por fim recomposição para retornar a indústria. Como exemplo, temos a latinha de alumínio que leva cerca de 60 dias para retornar às prateleiras do mercantil, segundo a Associação Brasileira do Alumínio (ABAL).
Fonte: Associação Brasileira do Alumínio (ABAL)
Legenda: Índice de reciclagem de latas de alumínio.

A cadeia de produção de alumínio se adaptou mediante as vantagens de reciclar, pois os gastos para a extração da matéria-prima e seu refinamento puro são elevados, com isso o Brasil tem o índice de 97,4% para reciclagem de latas de alumínio de bebidas, segundo a ABAL.
Foto: José Manuel
Legenda: Latinhas de alumínio para reciclagem.
Outros setores da indústria, que possuem fonte barata e sua segmentação simplificada, preferem não adotar a reciclagem, em razão dos gastos para reciclar tais materiais. “Adição e custos de recolha dos materiais, transporte e processo de reciclagem, sendo que alguns materiais como o plástico, possuem um custo de matéria-prima menor que os gastos que a empresa teria no processo de reciclagem. Por questões lógicas, isso torna a reciclagem desvantajosa no âmbito empresarial”, argumenta Guilherme de Melo.
Os plásticos de uso único é tida como preocupante para ambientalistas, por serem considerados produtos com vida útil efêmera, descartados imediatamente após sua utilização, constituem cerca de 35% a 40% na produção mundial, segundo dados da reportagem da Pesquisa FAPESP e artigo “Produção, uso e destino de todo o plástico já feito”, publicado na revista Science Advances 2017.
“Muitas vezes o plástico de uso único não é realmente feito para reciclagem. Ele é feito para produzir e depois ser descartado. Com isso você pode ver, o valor é muito pequeno, então compensa mais você comprar um plástico de uso único do que realmente fazer a reciclagem” explica Carla Mariana.
Outros materiais apresentam limites para quantas vezes podem ser reciclados. Objetos como latinhas de alumínio, cobre e vidro possuem uma substância infinitamente reciclável, mas o papel só pode ser reciclado de 5 a 7 vezes. O papelão, por sua vez, pode ser reciclado por mais vezes que o papel comum e transformado em novos produtos.
Além disso, o plástico possui uma variedade em suas composições químicas que determina se pode ser reciclado apenas uma vez ou várias. Por exemplo, a garrafa PET (Poli Tereftalato de Etila), é o que apresenta menores alterações de suas propriedades no processo; o PEAD (Polietileno de Alta Densidade), utilizado em caixas de leite, embalagens de iogurtes, frascos de detergente líquido; o PP (Propileno), encontrado em pacotes de salgadinho, canudos e embalagens transparentes, detendo reaproveitamento inferior e, com consequência, após reciclados, passam a ser de valor inferior ao original.
Recicláveis são os termoplásticos, aqueles que não sofrem alterações em sua estrutura química durante o aquecimento. Esses se enquadram nos seguintes grupos, identificados por uma numeração e sua respectiva sigla: 1 - PET, 2 - PEAD, 3- PVC (Policloreto de Vinila), 4 - PEBD (Polietileno de baixa densidade e Polietileno de baixa densidade linear), 5 - PP, 6 - PS (Poliestireno) e 7 Outros, sendo a mistura de vários plásticos.
Porém, quando diferentes tipos de termoplásticos são fundidos em conjunto, eles tendem à divisão, o que causa fraqueza estrutural no material resultante, deixando as misturas úteis apenas em aplicações limitadas e sua reciclagem nula, como exemplifica Carla Mariana.
“Dentro desse setor [produção de plástico], tem a questão do valor do produto e da própria qualidade do material. Normalmente quando você mistura assim produtos de diferentes materiais esse material perde valor, quando você vai pegar um material que tem mais características de vários materiais eles fazem com que esse material não consiga ser mais dividido, então você não consegue mais separar esse material dentro desse produto ele não serve mais para reciclagem, vai ser descartado”.
Ecopontos
A separação do lixo é um passo para conscientização individual e social, mas também uma destinação adequada para processos de reciclagem. Esse modelo de coleta implementa um mecanismo de recolhimento dos resíduos, os quais são classificados de acordo com sua composição e encaminhados para destinação de reciclagem ou não.
“Separar o lixo é que nem quando você monta sua primeira planilha de gastos no mês, você percebe que ‘cara, eu gasto tudo isso dentro do mês’, quando você começa a separar seu lixo você percebe ‘sério, meus Deus eu produzo tudo isso de lixo dentro de um mês e para onde é que ele vai’”, comenta Lucas.
A separação impulsiona a reciclagem, que Guilherme de Melo ressalta ser uma facilitadora no processo, pois a quantidades dos materiais misturados implica num esforço e custo, no reaproveitamento do lixo.
“Quando os materiais são destinados à reciclagem de forma misturada, gera-se mais esforços e, consequentemente, um aumento dos custos operacionais, além de poder gerar problemas durante o processo, como a quebra de equipamentos e a geração de produtos de baixa qualidade, devido a resíduos não desejáveis. Dessa forma, em alguns casos, a reciclagem se torna inviável caso não seja realizada a coleta seletiva dos resíduos.”

Foto: José Manuel
Legenda: Ecoponto de Fortaleza.
Iniciativas de coleta seletiva no Nordeste são 56,7%, segundo Abrelpe, que aponta de acordo com panorama de 2021, “mesmo em muitos municípios as atividades de coleta seletiva ainda não abrangem a totalidade da população”.
Na cidade de Fortaleza temos atualmente 90 ecopontos espalhados pela cidade. Segundo a Prefeitura, esses ecopontos recebem e fazem a destinação de resíduos, recicláveis, entulhos de construção, restos de poda e móveis velhos. Em seus seis anos de atividades, foram recebidas mais de 448 mil toneladas de recicláveis, entulhos e volumosos. Jáentre os meses de janeiro a novembro de 2021, foram mais de 143 mil toneladas.

Foto: José Manuel
Legenda: Pessoas depositando entulho no Ecoponto.
A destinação do lixo que produzimos é um fator importante para incentivar a reciclagem, e também contribui para a busca de soluções para melhoria na conscientização social e governamental em pautas socioambientais. “Perceber que existe um Ecoponto é algo que sensibiliza para uma responsabilização individual, de eu separar meu lixo e ter meu próprio canudo. São estratégias de educação, não são estratégias de solução do problema. A partir do momento que eu tomo esse cuidado, eu também sou uma pessoa que me preocupo com o que o outro está fazendo, e o outro é a indústria e o grande produtor. O indivíduo não vai resolver, mas é parte da educação, para entender que existe a necessidade de a gente se preocupar com isso, pensar para onde está indo esse resíduo e como ele é gerado”, enfatiza Andréia Lopes, cientista ambiental e integrante do projeto Verdeluz.
A educação sobre quais materiais podemos reciclar e locais que podemos dar vida útil para tal, se interligam na educação ambiental, nas discussões e exemplificações a serem geradas, como acrescenta Guilherme. “É importante falarmos de coleta seletiva e atentarmos que ela deve ser estabelecida junto a esforços de educação da sociedade sobre esse processo, pois é necessário que as pessoas saibam quais resíduos são ou não recicláveis, os resíduos necessitam de um tratamento especial, qual a importância na minha coleta seletiva para a reciclagem e meio ambiente.”
Legenda: Infográfico com materiais recicláveis, não recicláveis e para compostagem.
Como fizemos
A equipe inicialmente composta por Levi Águiar, Lídia Hellen e José Manuel, pensamos as pautas pelos fatores de repercussão sobre o tema e pela questão de conscientização para com meio ambiente. Em seguida, buscamos dados de pesquisas estaduais, nacionais e mundiais para compor argumentos sobre a reciclagem.
Nos encaminhamentos a contatar entrevistados especializados que atuavam em questões ambientais, no primeiro contato com Guilherme De Melo, Cientista Ambiental, que nos forneceu apontamentos importantes nos processos de reciclagem. Em continuidade Andreia Lopes, Cientista Ambiental; Carla Mariana, Advogada e Lucas Saraiva, graduando em Direito pela (UFC), membros do instituto Verdeluz, solícitos com nossa equipe.
Após conclusão de todas as entrevistas, a decupagem do material foi o passo principal no desenvolvimento da estrutura da reportagem, discutindo nos tópicos pertinentes à reciclagem.
José Manuel
“A reciclagem me mostrou e se mostrou não só uma necessidade que devemos aderir, mas sim, ações enquanto indivíduo solo, social, governamental, empresarial e institucional no desenvolvimento conjunto com o planeta”
Lídia Hellen
“A produção da reportagem me fez refletir sobre como a reciclagem é importante para que possamos viver numa sociedade mais sustentável, e em como a participação popular é essencial para que todo o processo aconteça. Aprendi mais sobre as consequências que o descarte irregular do lixo pode gerar, e a conscientização,para que sejamos educados desde pequenos a promover novos hábitos, e através dessa mudança cultural, possa surgir um impacto ambiental no mundo.”
Levi Aguiar
“A pauta e a produção em questão serviu para nos tirar de um contexto individual e nos empurrar para uma realidade comum: o cuidado com o meio ambiente. Consumo, lixo, coleta seletiva, o lugar onde o lixo é estrategicamente depositado e o papel das políticas públicas são só alguns tópicos que englobam essa pauta. Especialistas apontam para um ideal: a economia circular, separação do lixo, valorização dos profissionais que atuam com a reciclagem, a necessidade de políticas públicas, incentivo e investimento para a área. Por fim, ações verdadeiramente sustentáveis podem ser o mínimo que podemos retribuir ao meio ambiente como forma de preservar a existência humana”.

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