Pix: as mudanças nas relações de compra e venda no Brasil
- Avenida Agencia de Jornalismo

- 21 de ago. de 2022
- 6 min de leitura

Por Isabelle Maciel, Sarah Melo e Paulo Carvalho
“Ei, passa teu Pix!”. Ao longo dos últimos meses, Estevão Pires, 44 anos, passou a ouvir essa frase com frequência. Vendedor em barraquinha de comidas típicas nordestinas no bairro Benfica, em Fortaleza, ele se soma a muitos outros brasileiros que incorporaram o Pix no cotidiano como forma de lidar com o dinheiro.
Desenvolvida pelo Banco Central do Brasil (BC), a ferramenta que completa dois anos de operação em 2022 tem um claro objetivo: permitir — de forma simples e barata — que um usuário efetue pagamentos e recebimentos com agilidade. O BC define a funcionalidade do Pix como recursos que podem ser transferidos entre contas correntes, poupanças ou de pagamento pré-paga em poucos segundos, durante o dia.
Para o sistema financeiro do país, o mecanismo apresenta diversas potencialidades. Entre elas, o aumento na velocidade de pagamentos e transferências; a alavancagem da competitividade e eficiência do mercado com a bancarização da população, além do incentivo à transformação digital da indústria de pagamentos. Com custos mais baixos, ele promove uma inclusão popular no universo financeiro digital.
A tecnologia começou a ser desenvolvida em 2018, quando o Banco Central era dirigido pelo economista Ilan Goldfajn, durante o governo do ex-presidente interino Michel Temer. Foi lançada em novembro de 2020, obtendo sucesso e aceitação no mercado nos meses subsequentes.
No primeiro ano de existência, esse método de movimentação financeira cadastrou 348 milhões de chaves, mecanismo de segurança usado por 100 milhões de brasileiros para realizar 1.6 bilhão de transações no período. Naquele mesmo ano, que corresponde ao calendário de 2021, foram movimentados 4 trilhões de reais entre contas no país.
Para 2022, até o mês de março, 268 milhões de CPFs estavam cadastrados para uso do Pix, com 11 milhões de outras contas de pessoas jurídicas. Apenas no mês de janeiro, foram realizadas 1.3 bilhão de transações, volume equivalente ao total de movimentações no primeiro ano inteiro do Pix, como expõem relatórios do BC.
O conceito visual da marca Pix foi baseado na união entre tecnologia, transação e pixel. Essa identidade é usada de forma única nas 734 instituições financeiras reconhecidas pelo BC, importante para que os usuários, em sua diversidade demográfica, possam identificá-la de forma clara e incontestável.
Esse tratamento acontece de forma similar ao dado a outras ferramentas semelhantes ao Pix, disponíveis em outros países. A seguir, conheça algumas delas:
Com o Pix, processos online são otimizados, filas presenciais de pagamento e saque de dinheiro são reduzidas e novas oportunidades de negócios podem surgir a partir da adoção da ferramenta.
Ainda, custos operacionais são minimizados em comparação com outros tipos de transferências, como as TEDs (Transferência Eletrônica Disponível), especialmente para contas de pessoas físicas, que não pagam taxas pelas transações. As contas de empresas e instituições que utilizam o CNPJ no cadastro pagam taxas reduzidas para utilizar o serviço, que variam entre instituições financeiras.
“O Pix se soma às inovações do marco regulatório do sistema financeiro, bem como às tecnológicas que proporcionaram a chegada das chamadas Fintechs (empresas inovadoras do mercado financeiro)”, explica o economista Alex Araújo. “Ele é um marco na democratização do acesso aos serviços financeiros ao permitir que mais pessoas — que antes estavam fora do sistema — sejam incluídas na chamada bancarização, a um baixíssimo custo”, continua.
Sobre esse cenário, a analista de marketing Gabriela Barbosa comenta sobre o uso do Pix no dia a dia: “Agora não preciso mais me deslocar para efetuar pagamentos nem enfrentar filas para sacar dinheiro de bancos. Além disso, não tenho mais a necessidade de estar com muito dinheiro em mãos, o que é mais seguro.” Contudo, a cearense de 23 anos pontua que a facilidade trazida pelo Pix a tornou “mais volátil com gastos não programados”, o que põe em risco seu controle financeiro mensal.
Já Rivaneire Marques, consultora de 35 anos que utiliza a tecnologia principalmente para o consumo de alimentos, diz que a facilidade não influenciou negativamente no controle de gastos: “Consigo acompanhar melhor as saídas e entradas, já que tudo é identificado no extrato, ao contrário do uso de dinheiro físico”.
Do outro lado da “revolução” explicada por Araújo, estão aqueles que utilizam o Pix para o próprio sustento. Estevão, o vendedor de barraquinha citado anteriormente, compartilha que a maior parte de seus clientes consomem as comidas e bebidas que ele e a esposa comercializam via Pix. “Com uma simples transferência, resolvemos tudo. É mais fácil e seguro para a gente e para a clientela também, principalmente para as pessoas que não gostam de andar com dinheiro no bolso. Tem sido muito bom ter o Pix disponível”.
Riscos de fraudes
Mas, como muitas outras criações humanas, existe ainda a possibilidade da ferramenta ser utilizada de forma negativa e danosa. “O Pix transforma smartphones em carteiras. O grande ponto negativo está no desenvolvimento de novos mecanismos de fraude, que representam um risco principalmente aos poucos habituados no uso de sistemas de segurança mais avançados em seus aplicativos bancários. Diferente das carteiras tradicionais, o celular permite acesso a todo o saldo das contas dos usuários. O risco está aí.”, pontua Araújo.
Com isso, “a questão da segurança é o principal desafio que temos por enquanto. Mas é uma questão de tempo até que os mecanismos de segurança e verificação necessários passem a fazer parte da realidade”, continua o economista.
Araújo ainda comenta que o Pix foi lançado em um momento em que era importante democratizar os meios de pagamento: a pandemia de covid-19. Com as medidas de isolamento social e lockdowns impostos para conter o avanço da doença, grande parte das agências bancárias, lotéricas e equipamentos comerciais com caixas eletrônicos foram fechados. “Então, ele se apresenta como um passo importante ao reunir uma necessidade prática da sociedade naquele momento com um mecanismo de fácil acesso. A velocidade com a qual a população brasileira começou a adotá-lo e usá-lo, mostra que essa inovação veio para ficar”, afirmou.
Contudo, ainda existem aqueles que não fazem parte desse sistema, como é o caso de Irene Moreira, servidora pública de 61 anos. Apesar de não utilizar a ferramenta, ela explica que não se sente excluída das transformações digitais, mas que enxerga com preocupação a rapidez com que a digitalização de serviços acontece. “Essas mudanças obrigam as pessoas a terem uma só forma de lidar com quantias, quando às vezes é necessário ter mais opções, como ir no banco, sacar seu dinheirinho, botar no bolso e ir pagar suas contas. O idoso gosta disso. E agora tudo tem que ser resolvido em celular, quando tem gente que nem sabe mexer nisso”.
Segundo o BC, até janeiro deste ano, 29% dos brasileiros não faziam uso do Pix. A professora de economia da Universidade Federal do Ceará (UFC) Alessandra Benevides, explica que a ausência dos indivíduos no sistema digital é um reflexo daqueles que já estão marginalizados no sistema bancário, e que precisam ser incluídos. No entanto, Benevides acredita que a inclusão da modalidade Pix no sistema de pagamento de benefícios sociais, durante a pandemia de covid-19, foi um fator de progresso na bancarização do país, que diz respeito a inserção de pessoas no sistema financeiro.
Sobre o que pode surgir e se desenvolver em sequência ao Pix, Benevides destaca o serviço de Open Banking, que consiste no compartilhamento de dados entre bancos para facilitar processos de transferência. “É uma tecnologia que pode, inclusive, reduzir juros do sistema bancário”, diz a professora que também aposta no uso da inteligência artificial para um futuro próximo.
Então, o Pix se soma a outras inovações, as de natureza regulatória ou tecnológica presentes no mercado financeiro, com início provável nos anos 2010 com as corretoras de valores e homebrokers. Ele permite um barateamento importante das transferências, considerando que o comparativo mais próximo dele é o TED, que tem um custo proibitivo para uma parcela da população. “Então, o Pix é um avanço para o Brasil, ele democratiza o acesso aos serviços financeiros e colabora para um melhor funcionamento da economia. Acredito que cada vez mais ele assumirá um papel relevante como meio e forma de pagamento”, opina Araújo.
Histórico do dinheiro
Até tomar a forma digital com o desenvolvimento do sistema financeiro contemporâneo e de ferramentas como o Pix, o dinheiro como meio de troca carrega séculos de memória. Mutando-se e transformando-se ao longo do tempo, ele serve de documento histórico ao dialogar intrinsecamente com as gerações da sociedade que serviu até então.
A seguir, conheça a cronologia do dinheiro no Brasil.

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